O meu cantinho!...

Não sou Poeta, não sou Professor, não sou Engenheiro e muito menos Doutor. Sou alguém que aprendeu a ser o que é, porque um dia me disseram que na vida o que realmente importa é ser eu próprio, confiar nos sentimentos e respeitar o que nos rodeia, ...as pessoas e ...o Mundo!

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terça-feira, fevereiro 05, 2008

A Ilha das Trevas

Foto da capa by CMatosEste é o 1º romance de José Rodrigues dos Santos, que já vai na 5ª edição, e retrata / relata toda a história recente de Timor-leste, desde os longínquos anos de 1975 até 2002, o ano da Independência. Através da leitura deste livro fiquei a conhecer um pouco melhor a história (a triste história) de Timor e dos seus habitantes. Neste livro está tudo aquilo que as televisões e restantes meios de comunicação social "mostraram" sobre o tema, mas tem também algumas (muitas) passagens não relatadas, que nos passaram completamente ao lado, e essas sim, fazem com que todos os acontecimentos façam algum sentido. Acho no entanto um pouco exagerado e despropositado que praticamente todas as narrações relacionadas com personagens Indonésias (políticos e militares) estejam escritas precisamente em Indonésio seguido da necessária tradução em Português. Se a intenção é que aprendamos algumas palavras nesse idioma, para mim é totalmente descabido, face ao que é relatado. Eu de Indonésio apenas gostaria de saber as palavras necessárias para dizer a esses senhores o que em Portugal se costuma chamar a um árbitro de futebol, quando este bem ou mal apita contra a nossa equipa.

Toda a história está centrada na figura de um Timorense, Paulino de seu nome, e da sua família que viveu de bem perto os cerca de 22 anos de ocupação Indonésia.

Aconselho vivamente a leitura desta obra na íntegra, … no entanto e porque me marcou de sobremaneira duas ou três páginas que relatam a vida de Paulino, aqui as vou transcrever por fases.

Nota introdutória: Paulino e sua família (mãe e filha, já que a esposa tinha conseguido fugir para Portugal, e o filho mais novo já tinha morrido nos braços da mãe… à fome) estavam escondidos e refugiados nas montanhas com mais cerca de 500 pessoas. Estavam cercadas, cheias de fome e os megafones dos “bapas” (bapas ou nangalas, assim eram tratados os invasores pelos Timorenses) lá em baixo na cidade apelavam à rendição com a promessa de comida para todos. Claro que os Timorenses desconfiavam, mas naquela altura e naquele estado não havia escolha, os mais fortes fugiram ainda para mais longe, mas os mais débeis…

«Entregámo-nos. A minha mãe e a Isabelinha tremiam de medo, coitadinhas, e eu tentei dar-lhes segurança, ocultando os meus próprios receios. Aproximámo-nos dos nangalas e vi que eram homens do kopassus e de vários batalhões, e incluíam algumas tropas irregulares timorenses. Eles mantiveram as armas apontadas ao nosso grupo, formado por umas quinhentas pessoas, e conduziram-nos em direcção à ribeira Be Tuku, ali perto. Quando chegámos à margem da ribeira, os nangalas pararam e apontaram-nos as armas. De um lado estavam centenas de nangalas, atrás de nós encontrava-se a ribeira. Eu tinha a mão dada à minha mãe e à Isabelinha e percebemos que tínhamos chegado ao fim da linha. Abraçámo-nos com muita força, elas a chorar, eu a beijá-las e a tentar sossegá-las, mas sentia o coração aos pulos, sabia que íamos todos morrer.
Os nangalas abriram fogo de metralhadora sobre nós. Ouvimos o matraquear ensurdecedor à nossa volta, a Isabelinha gritou “pai!” e escondeu a cabeça no meu peito, vi pessoas a cair, à frente, à esquerda, à direita, balas a zumbir por todo o lado, a água do rio a ficar vermelha. A minha mãe foi atingida e embateu brutalmente em mim. Desequilibrei-me e caí com a Isabelinha no chão, os dois sempre muito agarrados, a minha mãe por cima com o sangue a ser despejado em golfadas sobre o meu corpo. Tombaram mais pessoas à nossa volta, algumas também em cima de nós. A Isabelinha chorava e eu rezava a Deus para que aquilo acabasse depressa. Se tínhamos de morrer, que morrêssemos logo, que nos fosse poupada a angústia da espera pelo inevitável. Mas não morremos imediatamente. As rajadas de metralhadora foram perdendo intensidade, até as armas se calarem.»

(... CONTINUA ...)
Nota - A parte ente « e » é uma transcrição na íntegra das páginas do livro "A Ilha das Trevas" de José Rodrigues dos Santos.

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